A Prefeitura de Ilhabela e a Fundação Arte e Cultura de Ilhabela (Fundaci) trabalham na restauração da canoa de voga denominada “Vencedora”, que integra o cenário da Praça Coronel Julião de Moura Negrão, no Centro da cidade, agora em novo local. Já está em fase de conclusão a obra de cobertura da embarcação, ao lado direito do prédio da antiga Cadeia e Fórum, onde integrará o acervo do futuro Museu do Mar, que será instalado no local, sede do Parque Estadual de Ilhabela.
A nova cobertura foi feita em policarbonato, material que protege a canoa da chuva e elimina a umidade. A antiga cobertura, feita com telhas não protegeu a embarcação da umidade, favorecendo sua deterioração.
A canoa foi doada para o município por um morador do bairro da Armação, senhor Renato Kengo Imakawa, e restaurada pelo mestre canoeiro Antônio Rafael, em 1998, quando passou a integrar o cenário da praça, e, desde então, nunca mais passou por manutenção. “Mesmo estando protegida por um rancho coberto, o que encontramos no início do ano foi uma canoa com vários e grandes pontos de podridão no casco, além da pintura danificada por pichações com inúmeros nomes e palavras de baixo calão, sem contar na utilização totalmente inadequada por andarilhos, bêbados e drogados”, conta o secretário executivo da Fundaci, Nivaldo Simões.
“Mesmo com a instalação de holofotes de alta potência no local, a canoa continuou a ser depredada, além de ser usada frequentemente como ponto de encontro de estudantes e freqüentadores da noite”, conta o secretário.
Nivaldo Simões acredita que estando nas dependências do antigo prédio da Cadeia e Fórum, a canoa ficará livre dos atos de vandalismo, pois o Parque Estadual mantém ali vigilância constante e diuturna. “Depois que fizemos a pintura da canoa, fomos procurados por familiares do doador dizendo que ele chegou a arrepender-se de ter doado a embarcação, tamanho era o abandono”, ressalta o secretário da Fundaci.
“Não bastasse, no passado, o espelho d’água onde estava localizada a canoa já teve plantas aquáticas e peixes, mas no início da década de 80, um acidente que culminou na morte de uma criança deixou o local triste e nunca mais nem água foi colocada ali”, lembra Nivaldo Simões.
Reforma e revitalização da Praça
A retirada da canoa para restauro envolve ainda o projeto de reforma e revitalização da Praça Coronel Julião de Moura Negrão, que prevê construção de áreas para apresentações culturais, fonte luminosa e duas grandes novidades: um museu de rua e a instalação da futura oficinaescola de fabricação de embarcações artesanais caiçaras.
A iniciativa da Prefeitura e da Fundaci tem como principal objetivo perpetuar a tradição caiçara da arte de navegar, que está em vias de extinção, “pois conta-se nos dedos os artesãos de canoas hoje existentes no arquipélago, a começar pela enorme dificuldade da obtenção da matéria-prima, algo que tentaremos reverter junto ao Ibama, que tem um programa de destinação de madeira apreendida para construção de embarcações artesanais”, explica Nivaldo.
A revitalização da Praça integra as iniciativas do prefeito Toninho Colucci para, entre outras coisas, resgatar o movimento econômico na Vila. Outra medida já anunciada pela municipalidade nesse sentido é a vinda de uma agência da Caixa Econômica Federal, com serviço de câmbio, para atender moradores e também turistas, incluindo os vindos através dos navios cruzeiros.
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“A Canoa Caiçara”
No linguajar caiçara “tirar” uma canoa, significa fabricar, esculpir uma canoa em um tronco de árvore, a canoa de um pau só. Duas são as ferramentas básicas para se “tirar” uma canoa: o machado e a enxó, duas ferramentas medievais.
As grandes canoas de um pau só são denominadas “canoas de voga”, ou “canoas bordadas”.
Voga é a ação de remar; remada; ou a cadência da remada. Voga também designa o remador, pelo qual os demais seguiam para remar na mesma cadência.
As canoas maiores, fabricadas com madeiras mais resistentes, ganham alongamento nas laterais, proa (frente) e na popa (ré), produzidos através de pranchas adaptadas, atingindo cerca de um metro de boca (largura) e até 12 metros de comprimento. Essas pranchas que “alongam” a canoa, recebem o nome de “bordas”, daí a nomenclatura “Canoa-bordada” (do artigo “A arte de tirar canoa de um pau só” – Nivaldo Simões).
Memória
A canoa foi colocada na Praça Cel. Julião de Moura Negrão, na Vila, em 1998, pela então prefeita, profa. Nilce Signorini, que, à época, providenciou sua restauração.
José Nogueira Neto, radialista e frequentador assíduo de Ilhabela, fez a intermediação da doação, junto ao proprietário, senhor Renato Imakawa, dono de uma salga de peixes no bairro da Armação.
“Zé Nogueira”, como é conhecido na Ilha, conta que sua mãe, no passado, viajava de Ilhabela a Santos em canoas iguais à “Vencedora”. “Por isso tenho muito amor por aquela canoa da praça e estava triste com o estado de abandono em que ela se encontrava”, finaliza.
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